Qual a melhor abordagem da Psicologia?



Hoje em dia, com a divulgação cada vez mais frequente dos serviços da Psicologia, as pessoas questionam sobre a importância e a eficácia das diferentes linhas teóricas/abordagens psicológicas existentes.


Mas o que é abordagem?


--> É o conjunto de teorias, métodos e técnicas que fundamentam o olhar e a prática da(o) profissional;

--> São os pressupostos de que a(o) psicóloga(o) vai se utilizar para compreender a dinâmica da(o) paciente e nos quais irá se apoiar para desenvolver seu plano de atendimento;

--> É a "lente" pela qual a(o) profissional vê o sujeito e através da qual irá abordá-lo.


Uma abordagem teórica na Psicologia é fundamentada por argumentos filosóficos que apresentam concepções características de ser humano e de mundo, entre outros elementos, como:


* uma teoria sobre o funcionamento mental;

* uma teoria do desenvolvimento humano;

* uma explicação sobre a origem do sofrimento;

* uma visão sobre o processo terapêutico;

* objetos específicos de estudo/trabalho;

* uma metodologia e um conjunto de técnicas a serem utilizadas.


Existem 3 grandes tendências teóricas na Psicologia:


I- Psicanálise


Nasce na Áustria no final do século XIX com Sigmund Freud. Em sua prática como médico neurologista, Freud se deparou com uma limitação no tratamento usual de pacientes histéricas e iniciou uma investigação acerca da gênese deste transtorno. A partir de suas observações ele apresentou o conceito de inconsciente psicanalítico e desenvolveu uma vasta obra que se tornou um método de investigação do funcionamento da psique, um sistema teórico sobre a construção da subjetividade e do comportamento humanos, um tratamento e uma forma de abordar fenômenos culturais e sociais (literatura, arte, política, etc) baseados na ideia de que toda relação do sujeito como mundo é mediada pela realidade psíquica.


A partir de Freud, outros analistas deram sua contribuição à Psicanálise (como Anna Freud, Melanie Klein, Donald Winnicott e Jacques Lacan), enquanto outros teóricos romperam com a Psicanálise e fundaram suas próprias teorias e abordagens: Psicologia Analítica (Carl G. Jung) e a Psicologia Reichiana (W. Reich).


II- Gestalt


Nasce na Europa no início do século XX, como uma proposta de negar a fragmentação das ações e processos humanos realizada pelas tendências da Psicologia científica do século XIX. Apresenta uma compreensão do ser humano como uma totalidade e tem raízes profundas na Fenomenologia. A fenomenologia surgiu no início do século XX, na Alemanha, com Edmund Husserl, que recebeu influências do pensamento de Platão, Descartes e Brentano. Entre os pensadores que sofreram a influência do pensamento husserliano, podem-se destacar: Martin Heidegger, Alfred Schutz, Jean Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty.


A Gestalt foi desaparecendo do ponto de vista de uma teoria com bases psicofisiológicas e outras abordagens foram se delineando, por diferentes caminhos: como a Existencialista, a Logoterapia, a Dasein Análise e a Gestalt Terapia, por exemplo.


III- Behaviorismo (Comportamental)


Nasce entre o fim do século XIX e o início do século XX, como uma reação à Psicologia Mentalista (introspectiva). Influenciado por seus precursores (Vladimir Bechterev, Ivan Pavlov e Edward Thorndike), John Watson foi o primeiro teórico a utilizar o termo "behaviorismo". Focada nos comportamentos observáveis (pois compreende que os processos mentais internos não são mensuráveis e analisáveis), a teoria behaviorista teve um grande desenvolvimento nos Estados Unidos, em função de suas aplicações práticas.


A partir do Behaviorismo surgiram, por exemplo, abordagens como o Behaviorismo Radical (B. F. Skinner), Cognitivo-Comportamental (TCC - Bandura e A. Beck), Terapia Racional Emotiva Comportamental (TREC - Albert Ellis) e Terapia do Esquema (Jeffrey Young)


Não existe teoria melhor ou pior: cada uma tem uma visão de mundo e de ser humano e seus próprios argumentos filosóficos. Os estudos e pesquisas realizados não são conclusivos em afirmar se uma ou outra teria maior eficácia no tratamento dos transtornos mentais.


Cada profissional escolhe a abordagem com a qual mais se identifica e se especializa em suas teorias, métodos e técnicas.


A abordagem ou linha teórica importa muito mais ao profissional do que ao paciente, pois é através do domínio teórico, metodológico e técnico da abordagem que o profissional pode diagnosticar, elaborar a condução do tratamento e avaliar resultados.


Ao paciente interessa a relação que é estabelecida com o profissional: que haja confiança, respeito, honestidade e boa comunicação. Independente da abordagem utilizada, se o paciente tiver um bom vínculo com o profissional e se sentir confortável durante as sessões, ele irá se comprometer com o processo, aumentando as chances de satisfação com o tratamento.


Portanto, o êxito no processo não está relacionado a “melhor” ou “mais eficiente” linha teórica – mas associado a competência do profissional no manejo da abordagem que utiliza, ao engajamento/adesão ao tratamento por parte do paciente e a relação que se estabelece entre ambos.


REFERÊNCIAS:


- Aliança terapêutica: estabelecimento, manutenção e rupturas da relação - Natacha Hennemann OliveiraI e Sílvia Pereira da Cruz Benetti


- Bock, Ana Mercês Bahia. Psicologia fácil / Ana Mercês Bahia Bock, Maria de Lourdes Trassi Teixeira, Odair Furtado. São Paulo : Saraiva, 2011.


- _______________________. Psicologias: uma introdução ao estudo de Psicologia / Ana Mercês Bahia Bock, Maria de Lourdes Trassi Teixeira, Odair Furtado. São Paulo : Saraiva, 2018.


- Impacto da relação terapêutica na efetividade do tratamento: o que dizem as metanálises? - Maria Adélia Minghelli Pieta e William Barbosa Gomes